sexta-feira, 12 de julho de 2013

Golden Gates (Em Construção)



GOLDEN GATES
by RICHARD YORK



  Parte 1: Bye Bye Baby – Introdução. 
               Faz dois meses desde que Derek se foi, e tudo o que vem em minha cabeça são perguntas certamente sem respostas. O destino não colabora com o plano dos apaixonados, eu e ele tínhamos planos de nos casarmos, termos uns dois ou três filhos (Alice, Aaron e Ariana), comprar uma casa ao leste de San Diego e construir uma lanchonete em que trabalharíamos os cinco e viveríamos felizes até a chegada de nossa velhice que seria quando nossos filhos nos visitariam todos os sábados no lar para idosos com nossos netos. Reunir-nos cada ano na casa de cada um para o natal e na virada do ano sentarmos na varanda do lar e observar os fogos exatamente à meia noite. Repito, o destino não colabora com o plano dos apaixonados. 


                              - Katie? – ouvi a voz de minha mãe ecoar dentro da casa vazia.

                              - Sim mãe – fechei a janela do quarto.

                               - Desça querida, está na hora de ir para o hotel, seu pai está nos esperando                                no carro! – limpei as mãos e desci as escadas olhando em volta.
                                            
                              Abri a porta de trás do carro e entrei. Cruzei as pernas e encostei a cabeça
                              no
vidro.

                              - Por que viemos para Los Angeles mesmo? – bufei.

                              - É para o seu próprio bem querida, San Diego não estava te fazendo bem,
                              você sabe o porquê. – minha mãe colocou seus óculos escuros. Fiquei
                             calada. 
 

               O som da água batendo na barragem é uma das melhores músicas americanas e espuma simboliza a orquestra, sair de casa para vir para uma cidade onde não conhece nada e ninguém não é difícil, mas fará você se tornar outra pessoa para conquistar novas amizades. Ter deixando Lexi e Chuck para trás não foi muito fácil, convivo com elas desde os cinco anos de idade, e depois de doze anos juntas acontece o Derek e sua grande idéia de ir ao parque com os amigos e me deixar sozinha no mundo. Não culpo. Ele era como uma criança e queria fazer tudo o que os outros faziam, essa foi só mais uma de suas peripécias em comum com elas (as crianças).
               O som das folhas da palmeira balançando me lembra de quando eu era pequena e meu pai tocava uma música para mim no piano, é bem antiga e alguns adolescentes de hoje não suportam esse tipo de gênero música. Jazz dos anos oitenta, é um dos melhores, tem tantas variações como Richard Cliff, Sarah Menescal, Marilyn Monroe, Herb Albert, Jamie Benson, Freddie Jackson e outro mais conhecido, o “rei” Elvis. A música escolhida era sempre Bye Bye Baby da senhorita Monroe, é dançante e eu e minhas amigas dançávamos com a melodia no deleite das brincadeiras de boneca.


                              - Pai, você pode ligar o rádio, por favor? – me deitei no banco.

                              - Ligue o rádio Mary! – ele rangeu os dentes.
              
                               - Bill, a menina pediu para que você o ligasse! – disse ela colocando o
                              “você” em evidência.



                              - Ah sim querida, o que quer ouvir? Richard, Sarah, Herb...? – ele estendeu
                              a mãe até o porta-luvas e começou a fuçar.



                              - Você sabe bem o que eu gosto! – soltei uma risada e logo a abafei com a
                              mão. – Bye Bye Baby! – sorri olhando para o espelho que dava visão para

                              trás. 



                              - Eu já sabia, estava com a fita em mãos. Só estava esperando você me
                              dizer. –  ele sorriu de volta franzindo a testa deixando suas linhas de

                              expressão mais expostas. 



               A doce voz de Marilyn e a extensão da pronúncia das palavras cantadas deixam no ar um cheiro psicológico de açúcar mascavo e baunilha fresca me transportando novamente ao passado, fazendo biscoitos de maizena doce com minha mãe e sujando toda a pia com o corante rosa do recheio. Tudo bem menininha, biscoitos de corações e recheio rosa com aroma de cereja para brincar com Chuck e Lexi de chá junto com as dezenas de bonecas. Cada uma trazia suas bonecas e as sentavam em volta da mesa rosa redonda em meu quarto e o chá só começava quando estávamos todas ao redor da grande mesa com as dezenas de bonecas de pano e porcelana. 


                              - Podem descer, tenho que estacionar a alguns metros daqui. – disse Bill. 

                              Desci do carro e esperei alguns minutos até minha mãe também sair e vir

                              até a porta do hotel onde eu esperava para fazer o check-in
                              - O que acha de irmos comprar algo para o jantar na praia? – minha mãe                               guardou algumas notas no bolso de trás da calça justa que estava vestindo
                              com a regata branca. 

                              - Boa idéia, preciso ver se as pessoas daqui jogam vôlei direito! – coloquei as                               mãos nos bolsos da frente para me esquentar, o tempo não estava favorável
                              as roupas que eu vestia.

terça-feira, 26 de março de 2013

On Our Way.


On Our Way
De Richard Andrade


On Our Way – Parte 1: L.A.
A vida nem sempre é bonita, ela tem seu lado obscuro, a cama negra onde se deitam apenas os fracos. Por sua vez a excitação perceptível nos olhos de quem assiste o inocente se contorcer perante o "julgamento" sagrado onde se define sua nova morada; o céu ou o inferno. A verdade é uma coisa que devemos ter cuidado não a deixando transparecer sobre a sua verdade, encobrindo a divindade da poderosa mentira e deixando claro o que sempre nos foi dito.

 Eu estava caminhando em uma estrada vazia e escura sem nenhuma luz mostrando o que viria pela frente. Já sem folego parei e frete a uma casa aparentemente vazia, não fazia barulho algum e não era possível escutar se quer um suspiro; até o alarme soar.

 "Corram, é o fim, salvem suas vidas!" - disse alguém correndo.

 "Para onde vão?" - gritei passando em frente elas.

 "Corra rapaz, vá para longe e se esconda!" - uma senhora segurou meu ombros ao dizer, seu tom era apavorante.

 Em alguns segundos o alarme parou e as luzes de alerta se acenderam.

 "Cada um para o seu canto, esse lugar já está parecendo o próprio inferno!" - um guarda passou acomodando as pessoas.

 O sol por suas vez era um amigo não muito presente que as vezes forçava para não aparecer, deixando todos na escuridão e no silêncio eterno.


On Our Way – Parte 2: 7 almas.
Fazem três dias que o sol não aparece por aqui, as noites tem durado dias e as pessoas tem começado a ficar paranoicas.
A regra de não durante a escuridão foi anulada, ela é tudo o que temos, as atividades feitas durante o dia agora são praticadas a no escuro, não tem sido nada fácil caçar sem luz, os animais se escondem dificultando com que nós nos alimentemos.

É bem visível o resultado disso, já sumiram sete pessoas no grupo; mas a boa noticia é que acharam dois debaixo da igreja em um túnel cavando para nos refugiarmos ao soar do alarme ou quando as coisas piorarem aqui por cima.

A guarda Mystie veio andando em minha direção com seu cinto de contimentos na mão, olhou para mim de cima a baixo fitando pausadamente cada peça de roupa eu vestia.

"O que é essa mancha vermelha em sua camisa Miller?" - ela segurou a barra da minha camisa olhando em meus olhos.

Quando questionado sobre o acontecido fiquei calado colocando as mãos sobre a boca, nem precisaria mais perguntar, bastava olhar para minha camiseta, antes branca.

Eu não conseguia entender, durmo em um cômodo trancado a senha, como poderia ter sido eu a atacar aquelas pessoas no túnel? Não tem explicação para tal coisa, está tudo ficando muito difícil por aqui. Espero que o sol não demore tanto para voltar, não quero me obrigar a comer o que servem na cela, beber sangue é errado, ainda mais sendo humano. Não quero causar vergonha à meu pai sendo o primeiro "canibal" a ser preso.

"Coma, é tudo por hoje!" - me foi empurrado um prato com retalhos de carne crua e um copo pela metade.

Cheirei o líquido, era sangue.

"Ei, isso é sangue!" - fui até a grade.

"É o que você bebe, certo?" - ele gargalhou olhando para mim.

"Não, eu não sou canibal!" - joguei o copo no chão.

"Você não pode me tratar assim canibal!" - ele veio até mim sacando sua arma de choque, a apertou e eu caí no chão desacordado.

Sabe, até que não seria uma má ideia ficar preso, pelo menos aqui eles servem comida todos os  dias.


On Our Way – Parte 3: Cantar blues ficou no passado (Final).
"Não aqui, não hoje, não agora, nunca mais."

Escuridão e fome foi tudo o que tivemos durante esses quatro anos em que o sol não apareceu, várias coisas aconteceram após minha prisão, as coisas que fui obrigado a fazer e as centenas de vezes que eu esperava o galo cacarejar para começar a tocar o banjo que fiz com madeira roída e fios de nylon velhos.

Ganhei alguns trocados dos guardas, mas tenho quase certeza de que nunca os gastarei, assim como minha filha Alissa que nasceu a exatamente mil trezentos e quarenta e quatro dias; as vezes fico imaginando como ela deve ser, meu nariz, meus olhos, minha boca, pelo menos alguma coisa minha ela deve ter, e é bem provável que ela não saiba quem sou, e o pior, temo que Andrea não a tenha contado que Chuck Miller, seu pai, eu, estou vivo.

Toda noite um por um os guardas foram sumindo, ocasionalmente suprindo as necessidades de algum canibal maluco, e muito esperto até, pois até hoje não foi pego. Observei todo o movimento na noite passada, o ultimo guarda sumiu em meio a escuridão, não se ouvia e nem se via nada o transformador de luz estourou, o modo como ele desapareceu foi sombrio e por sua vez o único que me fez ver a câmera que ficava de frente a minha cela, alguém ou alguma coisa estava me guardando para hora como essa.

Da cela onde eu estava só dava para ver uma paleira, a única que deve ter sobrevivido, acho que nunca tinha visto uma palmeira assim em Los Angeles, era grande, parecia saudável e suas folhas extensas tinham um tom de verde que eu nunca tinha visto. O brilho da lua - Nossa atual amiga. - refletia nelas; é como um balé clássico, as folhas balançavam, mais pareciam estar dançando.

A porta da cela se abriu, eu já estava pronto para morrer. O quarto foi tomado pela indesejada escuridão, parecia que a lua já tinha se cansado de iluminar ali vinte e quatro horas por dia durante quatro anos seguidos em que o sol desapareceu de vez.

Alguma coisa entrou na cela, fazia o barulho de um cachorro, mas sua aparência era de um home corcunda abaixado. Em horas assim não se deve fechar os olhos para não perder nada, eu não ia querer perder a hora da minha morte.

Em questão de alguns segundos a lua retornou a seu lugar iluminando toda a cela novamente; não era apenas um, e sim vários, vieram em minha direção mordendo cada espaço vago do meu corpo.

Conforme meu gritos se esvaiam chegavam mais "coisas" pulando em cima de mim. É este é meu fim, ser morto por zumbis, ou canibais loucos de fome, ou quaisquer outra criatura sombria, e nunca poder realizar meu sonho de pilotar uma moto em uma estrada vazia de L.A até o anoitecer sem ver nenhum carro.

Quero dizer, ninguém nunca mais vai realizar sonho algum, esse é o início de uma nova era, a era das trevas eternas.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Fame, Liquor, Love.

Fame, Liquor, Love
De Richard Andrade

Fame, Liquor, Love – Parte 1: Meu velho homem.
Chamam-me de Kat, mas meu nome é Katniss, sou nova em Pittsburgh cheguei ontem sem nenhuma moeda na carteira ou no bolso; não tenho onde morar e nem repousar, a rua me acolhe como se fosse meu lar. Pelos cantos da cidade andei no pernoite, descobrindo e redescobrindo cantos da minha mente que nem eu sabia que ainda estavam vivos, como exemplo cito a minha infância vivida ainda na presença de meu pai, Dean. Nós íamos todo final de semana ao parque da cidade, e depois comíamos um cachorro quente gorduroso que vendia em uma barraca na esquina da avenida onde tínhamos uma casa bem pequena.

Dizem que quem morre dormindo não sente nada, mentira, meu pai morreu de parada cardíaca aos quarenta e três anos, e ao que me parece ele sentiu muita dor. A noite fomos dormir, eu iria leva-lo ao hospital as 07:00 AM  mas ele não acordou, e quando o virei seus dentes estavam pressionados contra sua língua deixando o sangue sem circular na ponta, o que indica que ele sentiu seu coração parando a cada batida; a cada batida seu ar era tomado pelas mãos de Deus, sua vida era sugada pelo anjo da morte o deixando cada vez mais pálido e frio. Não tive a oportunidade de lhe dizer adeus, e a ultima coisa que escutei sair sua boca foi “Vou embora de casa!”, provavelmente já estava delirando. Não o condeno, mas não tive a oportunidade de dizer adeus. As vezes me pergunto o por que de sua vida ter sido levada, era um ótimo homem, ajudava os outros, uma vez colocou um mendigo dentro de casa, mas fomos roubados, ele sumiu no meio da noite com nossa batedeira elétrica e nosso reprodutor de fita cassete; mas não tive a oportunidade de dizer adeus.

Acordei aos pulos pela manha ao ouvir o som do carro que lava as ruas, a água se espalhava para todo lugar molhando tudo e todos.

“Ei! Meu violão!” - tirei a blusa que estava vestindo para poder secar o violão.

As lojas já iriam começar a abrir e logo essas calçadas recém lavadas estariam lotas e provavelmente sujas de novo. Retirei as tiras de papelão que havia forrado no chão para poder dormir e me sentei no degrau de uma loja de sapatos, eu preciso de emprego, preciso de dinheiro e necessito mostrar meu trabalho e honrar o que prometi a meu pai antes de sua morte.

“O que faz aqui?” – uma voz surgiu de dentro da loja ainda fechada.

“Quem está falando?” – olhei para os lados.

“Prazer, eu sou Marissa.” – as portas da loja se levantaram.

Marissa apertou minha mão me fazendo despropositadamente olhar para dentro da loja, era linda, bancos revestidos com couro branco e preto, as vitrines brilhavam refletindo o sol entre elas, o piso era todo de mármore branco e todos, todos os sapatos ficava na vitrine que abordava todas as paredes laterais da enorme loja.

“Eu sou Katniss, mas pode me chamar de Kat.” – disse levantando a ponta dos pés para ver por cima dos ombros de Marissa.

“Está procurando emprego, Kat?” – Marisa voltou para dentro da loja indo até o balcão e pegando alguma coisa.

“Sim, sou nova aqui na cidade.” – me sentei novamente no degrau.

“Ótimo, está contratada.” – Marissa voltou com uma placa escrita “Vagas de vendedores preenchidas.”.

“E quando eu começo?” – me levantei colocando o violão nas costas.

“Abrimos em cinco minutos, entre e vá até o segundo andar, vire a direita no corredor. Lá tem um banheiro, você pode tomar banho.” – ela sorriu retornando ao balcão.

Subi as escadas um pouco animada de mais, é claro que algo tinha que acontecer; meu tênis terminou de descolar.

“Não se esquece do uniforme, ele fica no armário do banheiro.”

Tirei meus tênis os arremessando contra a lixeira, tirei minhas roupas entrando debaixo do chuveiro, esse dia vai ser bem longo. Primeiro dia de trabalho, desajeitada, nova na cidade e ainda mais, nem conheço
Marissa direito e ela já me deu um trabalho, sinto que seremos boas amigas.

É pai, sei que onde está, está em um lugar bem melhor do que aqui, a noite te vejo e meus sonhos mas nada mais do que isso, te queria tanto aqui comigo para me ajudar a superar esses obstáculos novos, Pittsburgh  trabalho, vida nova. Eu preciso de você aqui mesmo que seja só em pensamento, eu continuo te amando para sempre, e eu vou conseguir tudo o que eu te prometi, vou ser sua princesinha do country e fazer muito sucesso.

O Bosque (Completo).


O Bosque
De Richard Andrade


O BOSQUE. – Parte 1: Algo está errado. 
Esse como sempre seria mais um Halloween como os outros, tudo igual, as mesmas decorações, as mesmas fantasias e as mesmas casas, aqui no Alabama esse feriado não é muito bem aceito, a maioria dos municípios e bairros são bem religiosos praticamente o rejeitam. Bom, isso não é problema pra mim, neste bairro quase não se acham cristãos, em todas as ruas as grandes maiorias decoram suas casas e jardins com bonecos de caveiras, abóboras, fantasmas e muitas das vezes se vestem como algum personagem. E este ano minha mãe me reservou a melhor fantasia, A Chapeuzinho Vermelho, ela é bem bonita, tem uma capa bem grande que arrasta no chão, uma cesta e um vestido branco, preto e vermelho, sem contar a sandália nova que ela me comprou no início da semana.

“Valerie, vá se aprontar está quase na hora de sair.” – minha mãe desligou a televisão.

Subi as escadas até meu quarto e girei a maçaneta, a luz estava desligada, estranho, eu ha havia deixado acesa à alguns minutos atrás antes de descer. Fui até a parede esticando os pés para dar alcance ao interruptor, liguei e desliguei várias vezes, mais a luz se quer piscava.

A luz da janela iluminava a cama, o suficiente para que eu pudesse me vestir, não demoraria muito, o vestido era só subir pelo corpo e a capa era de amarrar. Enquanto me vestia escutei um rosnado vindo do armário, a porta tremia e as luzes da casa começaram a piscar, pulei em cima da cama me envolvendo na capa e fechando os olhos. Após algum tempo o barulho parou e as luzes voltaram ao normal, principalmente a do meu quarto.

Sentei-me na cadeira de frente ao espelho e peguei o batom vermelho que minha mãe deixara cair de sua bolsa ontem enquanto passava pelo caixa do mercado, certamente eu seria a Chapeuzinho mais bonita do mundo. Sorri para o espelho e amarrei a capa em volta do pescoço, era lindo, o capuz caia sobre os ombros e ela por si arrastava no chão formando um caminho.

Desci as escadas e fui até a cozinha, minha mãe estava terminando de fazer a cesta, cheguei pra ela rindo e debrucei sobre a mesa olhando para ela.

“Mas o que é isso?” – ela se levantou da cadeira e pegou uma toalha. “Quem passou esse batom em você? Não se esqueça que você só tem dez anos.” – ela passou o pano pela minha boca retirando todo o batom.

“Mas mãe...” – bati o pé no chão.

“Mas nada, se não quiser pode tirar a roupa e ficar no seu quarto.” – ela pegou a cesta me entregando.

“Coloque os doces aqui e cubra com este pano listrado, assim ficará mais parecida com a Chapeuzinho.” – ela sorriu.

Eu não queria ir sem o batom, mais também não queria não sair neste halloween, mas pensando melhor, eu vou ganhar doces, e doces são bem melhores do que batom. Minha mãe foi até a porta a abrindo, fiquei do lado de fora e me virei para dentro para ela poder me ver, sorri de novo levantando a ponta dos pés e balançando a cesta com a mão direita.

“Você está linda, é a Chapeuzinho mais bonita que eu já vi.” – ela passou a mão por minha cabeça e me deu um beijo na bochecha.

“Ande só pelo nosso quarteirão e quando chegar à casa de sua avó me ligue que eu irei te buscar.” – ela olhou pelos lados. “E nada de ir ao bosque e falar com estranhos.” – ela cruzou seus braços.

“Está bem mamãe, até daqui a pouco.” – desci os degraus e pulei até a calçada.


O BOSQUE. – Parte 2: Mundo de fantasias. 
A rua onde eu morava era bem curta, não haviam muitas casas além da minha, mais todas estavam decoradas, tinham luzes, fantasmas com lençóis, mais sempre com aquele toque obscuro que deixava tudo mais misterioso. A primeira casa do caminho era da Sra.Pillsbury, era uma velinha bem dócil, não fazia mal a ninguém, e seus brownies eram deliciosos, sem contar seus pirulitos de chocolates. Toquei a campainha junto de outras crianças e esperei com que ela abrisse a porta.

“Booh!” – ela gritou abrindo a porta.
Todos nós rimos, ela estava vestida de rainha vermelha, mais por algum motivo estava sem o vestido.
“A melhor fantasia ganhará um pacote de pirulitos de chocolate, me digam suas fantasias.” – ela pôs a mão na cintura olhando para cada um de nós.

"Eu sou um Power-Ranger.”

“Eu sou uma princesa.”

“Eu sou a Alice.”

“Eu sou um transformer.”

“E você Valerie? Está vestida de que?” – ela olhou para mim.

Juntei os pés e balancei a cesta, minhas bochechas certamente estavam coradas de mais.

“Eu sou a Chapeuzinho Vermelho.” – abaixei a cabeça olhando para baixo.

“Bom crianças, acho que não mais o que decidir, a melhor fantasia é da Valerie.” – ela estendeu as mãos me entregando os pirulitos.

Virei-me de costas os colocando na cesta e cobrindo com o pano xadrez, nem agradeci, um sorriso e uma reverência foram suficientes. Continuei minha “jornada” pelas calçadas, e finalmente já estava na ultima rua, e no final dela estava o lugar mais temido após o entardecer, o bosque, um dos atalhos para a casa da minha avó que fica a duas ruas daqui. Eu sei que minha mãe disse que não devo passar por ali, mais é muito mais rápido, se eu passar por cima vai demorar de mais, as calçadas são extensas de mais, e a casa dela é no fim na rua. Segurei comigo a cesta que já estava pesada de tantos doces, as luzes da maioria das casas já estava desligada e a rua estava completamente deserta, acelerei os passos para chegar mais rápido, assim talvez nem perceberia que logo estaria dentro do bosque.


O BOSQUE. – Parte 3: Comer ou correr? 
O bosque era escuro e quieto, não se escutava se quer os pássaros, e quem dirá o som dos pés, ainda não sei o motivo de minha mãe não querer que eu entrasse aqui, está tudo bem, eu estou bem e ao que parece, estou sozinha, não há mais ninguém aqui.

“Acho melhor voltar.” – ouvi uma voz bem baixa parecendo vir dentre as árvores.

“Quem está ai?” – olhei em volta.

“Você não precisa saber quem eu sou apenas volte, ou se arrependerá.”

Desta vez me foi possível escutar, escutar o barulho de o que pareciam pés quebrando alguns galhos grossos e secos que estavam espalhados pelo chão. Eu ainda não havia conseguido distinguir o que era “aquilo”, a voz era envolta de rosnados e só se via uma sombra grande passeando pelas árvores; comecei a correr sem ver nada, tudo estava escuro e só o que iluminava o bosque era novamente a luz da lua.
Após alguns minutos correndo sem direção parecei atrás de uma árvore me sentando no chão.

“Que fome.” – pensei.
Levei a mão até a cesta pegando o saco de pirulitos de chocolate que ganhei da Sra.Pillsbury à algum tempo atrás, abri um e coloquei na boca o mordendo.

“O que leva na cesta chapeuzinho?” – senti algo se aproximando.

“Nada que te interesse.” – me levantei colocando a mão na cintura.

“Nossa que atrevidinha você é, seria uma pena se esbarrasse com algum lobo por ai.” – a voz ainda envolta por rosnados riu após terminar a frase.

“Lobo? Que lobo?” – olhei em volta acompanhando o barulho dos galhos.

“Como assim você se chama Chapeuzinho e não sabe quem é o lobo?” – ouvi uma caindo enquanto a coisa levantava o tom de voz.

“Meu nome é Valerie e eu não sei de lobo nenhum.” – fechei os olhos.

“Posso saber aonde vai, Valerie?” – aquilo disse em um tom irônico.

“Vou à casa de minha avó, ela mora a uns...” – olhei em volta procurando um ponto de referência. “... cinco minutos daqui.” – achei uma placa que indicava o caminho até o riacho.

“Não tenha pressa, ainda está cedo, sente e coma mais alguns doces.” – a voz sumiu der repente no ar.


O BOSQUE. – Parte 4: O lado escuro do sol. 
Não a dei ouvidos e continuei a trilhar o caminho, mais desta vez sem os sapatos para não fazer barulho. O bosque estava calmo, mais calmo de mais e mais uma vez o silêncio havia engolido todo o lugar deixando mais uma vez apenas a lua para cuidar dos insanos que por ali andavam.

Cheguei até o riacho dobrando os joelhos ficando bem próxima água, juntei minhas mãos formando uma cumbuca e a enchi com água; levei até a boca sugando toda a água e depois repeti o feito algumas vezes.
Ao olhar novamente para a água percebi uma sombra negra e grande, tinha os olhos grandes, castanhos e esbugalhados, seu focinho era esticado até a frente onde se encontrava com a boca, tinha a aparência de um cachorro em pé, mais com o triplo do tamanho, suas orelhas pontudas apontavam para o céu como antes de televisão. E seus pelos caiam sobre todo o corpo formando quase um sobretudo.
A coisa me agarrou por trás me arremessando contra uma das árvores que estava em volta e subiu em cima de mim.

“Eu avisei para não continuar, era melhor ter voltado.” – ele rosnou enquanto babava.

“Socorro!” – tentei gritar mais ele pos sua mão sobre a minha boca abafando todo e qualquer som que saísse.

O bosque era todo cercado por árvores e plantas, os galhos que caiam das árvores quebravam por qualquer coisa, uma pegada, um esquilo ou qualquer outra coisa. Meus ouvidos já atentos tremiam de tantos sons de galhos quebrando a todo o momento, quem mais além do lobo pode estar me seguindo?


O BOSQUE. – Parte 5: Cinco sentidos. 
Seria bem estranho perceber estar sendo seguida e não poder fazer nada, se bem que a situação que estou agora não pode ser considerada como normal. Minha mãe me alertou sobre o bosque, mas eu não a dei ouvidos; até que poder ver minha vida toda, quero dizer, meus dez anos bem vividos não é tão ruim, agora posso ver onde errei. – Mais de que adianta se não posso corrigir o que fiz? – Pois é, o que está feito está feito e nunca poderá ser refeito. Aqui diante da minha morte, o temido lobo, puder revisar também outras coisas; se o céu e o inferno existem, e quem toma conta deles, seria mesmo Deus no céu e Lúcifer no inferno? Será que eles não ser visitam de vez quando para decidir o futuro das pessoas? Ou será que eles estão em guerra como a vovó diz? Eles devem estar brigando por mim agora, não sinto mais nenhuma presença boa agora, será que Deus se esqueceu de mim logo agora que mais preciso dele? Acho que sim, o lobo por si com sua força está me dominando, uma criança de dez anos nunca iria conseguir lutar com um lobo deste tamanho.

“Valerie você está ai?” – uma voz masculina ecoou de um dos cantos do bosque.

“Eu estou aqui, perto do...” – o lobo cobriu minha boca novamente chegando mais perto de mim.

“Que olhos grandes você tem.” – falei dentre seus dentes.

“São para te enxergar melhor.” – ele virou sua cabeça para o lado me impedindo de continuar olhando para seus grandes e castanhos olhos.

“E que orelha grande você tem.” – continuei a o observar.

“São para te ouvir melhor.” – ele levantou a ponta de suas orelhas as deixando como a de um cachorro ao aprimorar sua audição.

“Nossa que nariz grande você tem.” – olhei em direção à água, toda sua imagem estava visível no reflexo.

“Eles sevem para te cheirar.” – seu nariz percorreu meu pescoço em questão de dois segundos.

“E para que serve essa boca tão grande que você tem? – olhei fixamente em seus olhos esbugalhados.
Ele virou sua cabeça para trás ao escutar algum barulho, mas logo se virou para mim. Lambeu os lábios e olhou para o meu pescoço.

Mas algo me chamou atenção atrás do lobo, uma silueta humana aparentemente masculina me desviar o olhar para cima dos ombros do lobo. O homem pediu para que não dissesse nada fazendo o famoso gesto do “Shhhh!”. Ele retirou algo do suporte do cinto, uma adaga talvez.

“Essa boca serve para...” – antes que o lobo pudesse terminar a frase o homem fincou a afiada adaga nas costas do lobo.

“É lobo, nós sabemos que essa boca serve para devorar crianças ingênuas como a Valerie; quero dizer, servia pois agora você está morto, a lenda que esteve viva durante centenas de anos agora teve seu merecido fim colocando de vez um ponto final nessa longa história ...” – ele se agachou torcendo a adaga fazendo o lobo soltar seu ultimo uivo. “... jamais outra criança irá morrer com você.” – ele retirou a adaga e a arremessou ao lago.

O lobo logo voltou a sua forma humana se desfazendo em poeira. Era bem possível ver cada grão ser levado pelo ar enquanto era envolto pelo fogo.

“Venha Valerie, vamos embora.” – ele estendeu sua mão a mim me deixando ver seu rosto.

“Padre Olson?” – me levantei pegando em sua mão.

“Sim Valerie, dizem que quando alguma alma inocente precisa da ajuda de Deus ele não exita em mandar um de seus soldados também conhecidos como anjos para ajudar.” – começamos a andar retomando o caminho de onde eu nunca deveria ter me desviado, a casa da vovó.

“E como sabe que eu estava aqui?” – olhei para ele.

“Te vi entrar aqui, e por força maior decidi te seguir, mas por algum motivo me perdi de você quando começou a correr, mais depois fui seguindo os rosnados até te achar.” – ele sorriu.

“Chegamos, é ali a casa da vovó.” – soltei a mão do Padre Olson e corri até a porta batendo. Minha avó olhou pela janela e foi até a porta destravando todas as trancas e a abrindo.

“Oh querida, que linda fantasia de Chapeuzinho.” – ela sorriu fazendo sua dentadura se deslocar.

“Venha Olson, se junte a nós, acabei de fazer browies e chocolate quente.” – ela acenou.

“Obrigado Lana, mais tenho que voltar a igreja está ficando tarde.” – ele deu as costa e saiu andando.

“Venha querida, entre. Está frio aqui fora.” – ela abriu espaço para que eu pudesse entrar.

Me sentei na poltrona vermelha ao lado do telefone enquanto a vovó trancava a porta e olhava pela janela.


O BOSQUE. – Parte 6: O novo começo (Final). 
Minha mãe já estava a caminho para me buscar, e a hora se exaltava deixando a cada minuto uma prega de pressão a mais sobre meus ombros. O capuz já pesava por estar com lama e bem cheio de folhas molhadas, meu vestido sujo provavelmente estava sujando toda a poltrona antes vermelha de minha avó.

“Valerie, sua mãe na porta.” – minha avó saiu da cozinha limpando as mão no avental.

“Tchau vovó!” – corri até ela passando meus braços por sua cintura.

“Até amanhã na missa minha querida.” – ela sorriu me dando um beijo na nuca.

Suas mão não cheiravam muito bem, e seus dedos manchados de vermelhos estavam enrugados deixando a maçaneta da porta embaçada.

“Annabeth o que essa menina faz a essa hora andando por ai?” – ela cruzou os braços olhando para minha mãe.

“Mãe, eu não sabia que ela ainda estava na rua.” – fui brutalmente puxada pelo braço para o lado de fora. 

“Vamos Valerie, você ainda tem que se banhar antes de dormir.” – ela se virou de costas segurando minha mão.

“Viu? É por isso que eu não queria que você viesse, sua avó sempre fala de mais.”

E foi assim por todo o caminho até chegarmos em casa, nada me fazia desviar a atenção de sua boca e de como ela fazia chover enquanto falava, nós nunca damos atenção a uma coisa até começarmos a repará-la por completo, uma chuva de saliva as vezes pode ser muito mais interessante do que ficar queimando o cérebro em jogos de vestir no computador.

“Suba já e vá direto para o banheiro mocinha, depois olhamos a cesta.” – minha mãe abriu a porta soltando minha mão e dando um pequeno tapa em minha bunda.

Subi a escada incomodada, minhas costas estavam coçando muito e conforme eu coçava minha unha puxava a pele lesionada a grudando e baixo, tudo o que eu mais queria naquele momento era tirar aquele vestido imundo.

“Mãe!” – gritei do banheiro segurando o zíper do vestido.

“O que foi Valerie?” – era possível escutar a má vontade saindo de sua boca.

“Eu não consigo tirar o vestido.” – me sentei sobre a tampa do vaso a esperando subir.

“Mas é só puxar o zíper.” – ela subiu a escada enfurecida.

“Venha aqui.” – ela me puxou pelo braço tentando descer o zíper ao mesmo tempo.

“Está vendo, não vai. Eu disse.” – cruzei os braços.

Minha mãe se levantou descendo as escadas e talvez indo até a garagem pegar alguma ferramenta do meu pai. Ela voltou com uma tesoura de jardinagem na mão esquerda, sim ela estragou todo o vestido, o cortou de cima a baixo para tirar.

“Valerie, o que é isso nas suas costas?” – ela passou a mão por cima.

“Aaai mãe!” – bati o pé no chão.

“O que é isso?” - ela levantou o tom de voz.

“Eu não sei.” – coloquei a mão nos olhos ameaçando chorar.

“Isso é um corte profundo, parece que alguém passou a faca com muita força aqui.” – ela apertou mais. “E tem pelos aqui.” – senti dois dedos entrando no corte abrindo ainda mais caminho para a dor inexplicável.

Quando perdemos o controle de quem somos não pode se dizer que ainda somos nós, por que nunca mais você terá sua vida de volta, ainda mais depois de ter levado um arranhão de um lobisomem.
As pessoas não entendem a necessidade dos outros de viver, simplesmente acham que a vida se vive um dia de cada vez, este pensamento foi decretado errado. Ninguém escreve sua vida, eu preferia não ter me tornado o que me tornei, preferia não ter pegado o atalho, e preferia não ter pedido ajuda com o vestido; como eu disse antes, nunca serei eu mesma de novo. Perder o controle pode significar várias coisas até mesmo não achar o controle do vídeo-game, para mim, perder o controle significa se tornar o novo eu.